O Padre Responde

 

Qual o sentido dessa frase de Jesus em Lucas 9,60: "Deixe que os mortos sepultem seus próprios mortos; mas você, vá anunciar o reino o reino de Deus"?

Gostei de sua pergunta, estimada paroquiana. Realmente, esta frase de Jesus é um tanto curiosa, incompreensível, se não for vista dentro do seu contexto, mas isoladamente.

O Evangelho de Lucas é composto de vinte e quatro capítulos. A partir do capítulo nove, versículo cinqüenta e um (9,51), Lucas começa a mostrar a grande viagem de Jesus a Jerusalém. Essa viagem termina no final do capítulo dezenove, quando ele entra na cidade.

Esses capítulos são a parte mais original de Lucas e trazem uma das chaves para ler e compreender esse evangelho. Você estimado leitor, já teve o privilégio e oportunidade de ler o Evangelho de São Lucas? Ainda não?!! Que pena!!!

Nestes dez capítulos que acabei de citar, Lucas afirma que Jesus está a caminho, e aqueles que o seguem constroem com ele uma nova história. Essa viagem à Jerusalém representa a própria caminhada de Jesus com a humanidade rumo à vida plena. É uma caminhada difícil, cheia de desafios e enfrentamentos, incluindo morte e ressurreição.

Ao longo dessa caminhada as pessoas são provocadas a tomar uma posição a favor ou contra Jesus. É impossível ficar em cima do muro. O resultado da provocação Lucana é este: quem anda com Jesus caminha para a vida; quem o rejeita está se afastando do caminho que conduz à vida. Repito uma vez mais, vale a pena a leitura atenciosa e meditativa desses capítulos.

A expressão "deixe que os mortos sepultem seus próprios mortos; mas você, vá anunciar o Reino de Deus" está no começo dessa longa caminhada de Jesus com aqueles que estão dispostos a segui-lo. Para iniciar viagem com Ele é necessário estar pronto a enfrentar riscos, é o que nos garante o evangelista São Lucas. De fato, três pessoas manifestaram o desejo de caminhar com Jesus, mas cada uma delas pretendia ter garantias ou seguranças antes de partir. A primeira pessoa que desejava caminhar com Jesus buscava segurança. A fama de Jesus o entusiasmava e satisfazia seus próprios interesses, ela estava em busca de conforto.

Mas Jesus o desanima, quando diz: As raposas tem tocas e os pássaros tem ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça" (Cf Lc 9,58). A pessoa estava em busca de conforto e segurança e Jesus lhe diz que seu caminho é feito de incertezas e despojamento total.

Vem, a seguir, outra pessoa que deseja caminhar com ele, mas pede tempo para sepultar o próprio pai. E Jesus lhe diz para deixar os mortos enterrarem os próprios mortos. Ou seja: prioridade absoluta no seguimento de Jesus. Não eleger outras prioridades e só depois, se sobrar tempo e vontade, segui-lo. Os mortos nesse caso não são os defuntos em sentido material, e sim as pessoas que não seguem Jesus. São os que decidiram "morrer" para o Reino, ou seja, não se comprometeram. Estes sim, podem se ocupar com o enterro de um defunto. Procissão do enterro, na Sexta-Feira da Paixão que o diga!!!

Jesus é muito exigente para com os que pretendem caminhar com ele. Ele não quer que as pessoas adiem indefinidamente a própria decisão de segui-lo e anunciar o Reino.

Nessa mesma direção vai a resposta de Jesus à terceira pessoa que está disposta a caminhar com ele, mas pretende antes despedir-se da família. Os laços familiares são, sem nenhuma sombra de duvidas, uma coisa importantíssima, necessária. Todavia, no evangelho de Lucas, Jesus afirma que há uma família maior a ser considerada: a família dos que se comprometem com sua palavra: "Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática" (Cf Lc 8,21; 11,27-28). Ainda hoje existem famílias que de alguma forma impedem seus filhos de seguir o próprio caminho indicado por Deus.

Jesus não foi grosseiro ou descortês com essas pessoas. Foi, ao contrário, exigente, sem esconder os desafios que o compromisso com ele comporta. Para segui-lo se faz necessário abandonar a segurança de ter uma casa. Mais ainda: é preciso por em segundo lugar aquilo que prezamos - por exemplo, os laços familiares -, pois a caminhada com ele é longa e cheia de desafios. Cristo exige dos seus seguidores três qualidades: A) Disponibilidade total; B) Desprendimento (renunciar as seguranças humanas); C) Perseverança (não voltar atrás).

No fim da caminhada, Jesus vai enfrentar os donos do poder político, econômico, ideológico e religioso. O enfrentamento será difícil e, como conseqüência de sua missão, ele vai ser morto.

A pergunta que permanece de pé é esta: Será que seus seguidores (cristãos) estão prontos a caminhar com ele? Qual é a nossa resposta ao convite de Jesus? Será que Ele pode contar de fato, com cada um de nós?

 

Fonte inspiradora:
- Evangelho de São Lucas, caps. 9,51-19,48
- José Bortolini, Tire suas dúvidas sobre a Bíblia, pág. 189-190. Colaboração: Pe. Reinaldo  

 

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